quarta-feira, 19 de março de 2014

Cena cotidiana

Minha primeira reação foi fechar a janela. Eram quatro horas da manhã. Talvez um pouco mais. Uma algazarra ensurdecedora adentrou pelo quarto. Vozes desconexas. Eu não conseguia entender o que as pessoas falavam.
No primeiro momento, achei que eram adolescentes curtindo – exageradamente – o final da noite. Depois, a companhia tocou. “E quem bate à porta às quatro da manhã, se não for por um motivo sério?”, pensei. Tocou de novo.
Pulei da cama. Abri a porta. Era a vizinha. Horrorizada me chamou para ver a labareda que saída de uma das janelas. Um apartamento do bloco em frente ardia em chamas. Muitas chamas.
A gritaria vinha dos vizinhos que tentavam acordar os que ainda descansavam. Muita gente saiu à rua de pijama e camisola.
No apartamento incendiado, uma senhora na janela. Isolada por uma porta de madeira, conseguiu salvar-se e ao marido acamado. Lá embaixo, assistindo a tudo, uma mulher desmaiou. Muito sofrimento e ansiedade até a chegada dos bombeiros.
Pelos meus cálculos, a demora foi de 20 minutos. Há quem diga que passou de 45. Fato é que chegaram e, após estudar toda a cena, agiram. Após o resgate, as vítimas seguiram para o hospital. Foram internadas porque inalaram muita fumaça.
Quando a imprensa chegou, só havia fumaça. E neste caso, onde há fumaça não havia mais fogo.  Perderam o fato. Fizeram povo fava. Entrevistaram as testemunhas. A mulher que desmaiou agora dá entrevista para a TV. Diz que ficou muito assustada e teve mede de que a vizinha pulasse da janela.

Da cena o que resta são cinzas. O apartamento foi destruído. Não restou nada. Móveis, lembranças, documentos. Nada. As janelas ganharam uma tonalidade negra oriunda da fumaça. Fim de trinta anos vividos ali.