Cena cotidiana
Minha primeira reação foi fechar a janela. Eram quatro horas
da manhã. Talvez um pouco mais. Uma algazarra ensurdecedora adentrou pelo
quarto. Vozes desconexas. Eu não conseguia entender o que as pessoas falavam.
No primeiro momento, achei que eram adolescentes curtindo –
exageradamente – o final da noite. Depois, a companhia tocou. “E quem bate à
porta às quatro da manhã, se não for por um motivo sério?”, pensei. Tocou de
novo.
Pulei da cama. Abri a porta. Era a vizinha. Horrorizada me
chamou para ver a labareda que saída de uma das janelas. Um apartamento do
bloco em frente ardia em chamas. Muitas chamas.
A gritaria vinha dos vizinhos que tentavam acordar os que ainda
descansavam. Muita gente saiu à rua de pijama e camisola.
No apartamento incendiado, uma senhora na janela. Isolada
por uma porta de madeira, conseguiu salvar-se e ao marido acamado. Lá embaixo,
assistindo a tudo, uma mulher desmaiou. Muito sofrimento e ansiedade até a
chegada dos bombeiros.
Pelos meus cálculos, a demora foi de 20 minutos. Há quem
diga que passou de 45. Fato é que chegaram e, após estudar toda a cena, agiram.
Após o resgate, as vítimas seguiram para o hospital. Foram internadas porque
inalaram muita fumaça.
Quando a imprensa chegou, só havia fumaça. E neste caso,
onde há fumaça não havia mais fogo. Perderam
o fato. Fizeram povo fava. Entrevistaram as testemunhas. A mulher que desmaiou
agora dá entrevista para a TV. Diz que ficou muito assustada e teve mede de que
a vizinha pulasse da janela.
Da cena o que resta são
cinzas. O apartamento foi destruído. Não restou nada. Móveis, lembranças,
documentos. Nada. As janelas ganharam uma tonalidade negra oriunda da fumaça. Fim
de trinta anos vividos ali.

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