sexta-feira, 19 de junho de 2009

Reflexões

Com os olhos fixos no teto, contemplava um lustre de cristal, saboreando o primeiro cigarro da noite. Depois de muito esforço, conseguiu ler o que estava escrito em letras mínimas: Tony’s Chandelier CO. Sentiu o estômago revirar e um buraco em sua alma. Lembrou-se do único homem havia amado. Inebriada, começou a lembrar de quando ainda morava com os pais em Mecklenburg, na Carolina do Norte. Há muito uma dúvida a assombrava: “por quê?”.

Filha única de um grande produtor de tabaco, Evelyn era tratada como uma princesa. Na infância, acostumou-se a ver os negros cuidando da casa, dos animais, da plantação, da colheita, do preparo do fumo, do envio para a indústria. Aos 15 anos, aprendeu a fumar e fabricar seus próprios cigarros, com os empregados da fazenda. Sempre que podia tomava uns tragos com o velho John, um negro de mais de 70 anos, que nunca havia saído do condado.

John tinha um neto, que morava em Nova York. Tony estava de volta, depois de quatro anos, para o feriado de Ação de Graças. Evelyn não se lembrava dele. Curiosa, andou atrás do moço querendo saber tudo o que ele estivesse disposto a contar sobre a cidade grande. Tony não dava atenção para ela.

Numa noite, após inúmeras partidas de Black Jack regadas a whisky, Tony voltava para a casa, sentido o vento no rosto e o cheiro da sua terra natal. De olhos fechados, resgatava um pouco da sua identidade. Envolto em pensamentos, foi abordado por Evelyn, que o esperava à espreita por uma fresta da janela de seu quarto.

A menina foi atrás dele ainda de camisola. “O que você quer?”, perguntou. Ela não respondeu. Então, olhou fixo nos olhos dela, puxou-a pelos cabelos, encostou-a na parede, apertou seu corpo e beijou-a com um vigor que nem ele mesmo conhecia. Amanheceram juntos, no estábulo. Evelyn nunca havia estado com um homem. Ele conhecia várias mulheres.

Entorpecida, voltou para a casa sem que ninguém a visse. Havia encontrado seu homem. Ingênua, passou o dia em meio a devaneios. Queria ir para Nova York, casar e ter filhos. No fim do dia, ao procurar pelo amado, soube que ele havia ido embora. “Sem se despedir de mim?”, pensou. Não podia acreditar. Um buraco estraçalhou sua alma. Durante anos conviveu com a sensação de que sempre faltava algo.

No início, tudo era desculpa para querer saber de Tony. Sem imaginar o que houve entre eles, John sempre comentava as novidades do neto. E, quando Tony marcou o casamento, foi entusiasmado contar para ela. Evelyn sentiu faltar-lhe o chão. Foi a última vez que perguntou sobre o amado.

Sem ter o que fazer, seguiu vivendo. Tornou-se uma jornalista de sucesso, linda e desejada. Solteira, sofisticada e independente. Despertou muitos amores. Conheceu muitos outros homens, desprezou todos. Nunca mais amou ninguém.

Numa noite em que seria homenageada, enquanto aguardava para entrar no palco, observou um lustre que pendia sobre sua cabeça. Encantada, deitou-se no chão para contemplar os detalhes.

O tempo ali, Evelyn só poderia imaginar pelos vestígios de cinco cigarros no cinzeiro. Ela queria que Tony estivesse ali. Ainda se perguntava o teria feito de errado, sem saber, no entanto, que para Tony ela fora apenas mais uma. Ele nunca a amara.

P.S. - esse texto foi produzido para um concurso da Revista Piauí. Como não deu tempo de enviar, publico aqui.

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